Na Índia, chama-se Avatar, a pessoa iluminada que conseguiu realizar em si o humano e o Divino. Todos possuem o ser Divino em si, poucos conseguem manifestá-lo na vida. Assim, Sri Aurobindo fala que:

“A Divindade interior é o eterno Avatar no ser humano; a manifestação é o sinal e o desenvolvimento dele no mundo exterior.” 

Exemplos de Avatares

Podemos dar dois exemplos bem conhecidos de avatares: Cristo e Krishna.

De Cristo conhecemos a caminhada terrestre através dos evangelhos. Nele, humanidade e divindade convivem tão intimamente que, segundo Leonardo Boff, “tão humano assim, só poderia ser divino.” 

Krishna também é um ser divino encarnado, que tem no Bhagavad Gita (escritura da tradição espiritual da Índia) o principal relato de sua ação espiritual. Ela se dá em um cenário simbólico de guerra, onde Krishna é apresentado na forma de um cocheiro, que tem como parceiro Arjuna, o arqueiro que irá viver o conflito de lutar contra seus parentes próximos, seres amados, mas que cometem atos de maldade e injustiça.

A existência histórica de Cristo e Krishna

Existem numerosas provas da existência histórica de Cristo, porém, Sri Aurobindo não considera essa a questão mais importante. O mais importante seria:

“Conhecer pela experiência espiritual o Cristo interior, viver enaltecido na luz de seu ensinamento e escapar ao jugo da lei natural por essa reconciliação do ser humano com Deus.” 

“Se o Cristo, Deus feito homem, vive no interior de nosso ser espiritual parece de menor importância que um filho de Maria tenha vivido fisicamente, tenha sofrido e morrido na Judeia.” 

Há também numerosas evidências da existência histórica de Krishna, mas esse não é o tema do  Bhagavad Gita, ou Gita simplesmente. Aí se faz uma apresentação muito bonita e esclarecedora da parceria da alma humana com a alma divina, através do companheirismo entre dois amigos, Krishna e Arjuna.      

Em seus Ensaios sobre a Gita, Sri Aurobindo destaca Krishna como o instrutor divino guiando com seu poder a iluminação espiritual do ser humano.

Ele é “o eterno Avatar, o divino que nasceu na consciência humana, o Senhor que se aloja no interior do coração de todos os seres, Ele guia por trás do véu todos os nossos pensamentos e ações e a aspiração de nosso coração…”

A parceria entre Krishna e Arjuna

A Gita se desenvolve em torno da parceria entre Arjuna e Krishna. Arjuna, é a contraparte humana da expressão divina de Krishna.

“Ele é a típica alma humana em conflito. Ele ainda não recebeu o conhecimento, mas tornou-se apto a recebê-lo por sua ação no mundo, e receberá sua iniciação no campo de batalha.” Krishna “pega esse discípulo em um momento de seu desenvolvimento psicológico por meio da ação egoística, quando os valores mentais, morais e emocionais da vida… desmoronam, em uma falência completa e inesperada e o Instrutor deve erguê-lo dessa vida inferior, levá-lo a uma consciência superior…”

Nesse contexto, é interessante observar que:

“Arjuna e Krishna, esse humano e esse divino estão juntos, não como dois videntes em um pacífico eremitério de meditação, mas um como combatente e o outro, como aquele que segura a rédea em meio aos clamores, em meio à colisão das armas, no carro de guerra.”

Krishna sabe-se  Divino e conduz Arjuna. Este tem Krishna como seu melhor amigo, mas o  desconhece, e em dado momento da Gita confessa sua ignorância e diz:

“Que durante todo tempo ele, na verdade não conhecia seu Amigo divino.”

A confissão de Arjuna também nos descreve, nós homens comuns, que infelizmente ignoramos o companheiro divino que está ao nosso lado, nos conduzindo com sua luz.

Esse texto mostra várias coisas importantes. Em primeiro lugar mostra a presença do Avatar em desenvolvimento em nós, depois reforça a parceria existente entre nossa face humana e nossa face divina. Em seguida revela-nos que a progressiva manifestação do Divino em nós, não se dá sem nossa participação e ocorre nos confrontos, nas lutas do dia a dia. É na ação, é em meio à guerra que vamos ouvindo ou não, dando espaço ou não, para ação do ser divino. É, como diz uma amiga, um pegar ou largar que ocorre a cada momento. Nele vamos escolhendo, dando oportunidade à manifestação ao Divino em nós, ou então agimos “como de costume” e retardamos nosso estar unidos a Ele.

* Neste texto usamos uma tradução da obra “Essays on the Gita. Pondicherry: Sri Aurobindo Ashram”, feita por Aryamani, ainda não disponível em português. As referências estão entre as páginas 12-28 da obra citada em inglês.

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