Sri Aurobindo chegou a Índia à bordo do Carthage, no início de fevereiro de 1893. Tinha então quase vinte e um anos. Durante quatorze anos na Inglaterra sentira-se envolto por uma nuvem negra que se desfez ao pisar em sua terra natal. Seu sentimento foi então uma paz imensa que o acompanhou por meses. Seu pai não chegou a vê-lo, morreu abalado pela notícia do naufrágio do Roumania, navio em que por uma informação equivocada, julgara estar Aurobindo.

Em Baroda, sua função junto ao príncipe incluía atividades das mais diversas. Departamento de Terras, Central de Publicações, Secretaria de Estado, Jornal de Vahivatdar, Professor de Francês na Universidade de Baroda, Professor de Inglês e finalmente vice-diretor na mesma universidade. Embora não fosse secretário do Maharaja redigia com frequência suas cartas, discursos e documentos.

Todo esse trabalho não conseguia aplacar sua verdadeira preocupação, a emancipação da Índia, pois ainda na Inglaterra ele decidira dedicar sua vida ao serviço de seu país e de sua libertação. Criticava o congresso indiano, por sua subserviência ao governo inglês, indignava-se com propostas de reformas ou colaboração.

“Eis, pois o que digo do Congresso: suas metas são equivocadas, o espírito que as quer atingir não é um espírito de sinceridade e transparência, e os métodos escolhidos não são certos; além disso os líderes nos quais confia não são o tipo de homens capazes de liderar. Em suma cabe dizer que no momento somos cegos conduzidos por cegos, ao menos por zarolhos.”

Vicente Merlo: Os ensinamentos de Sri Aurobindo. O Yoga Integral e o Caminho da Vida. São Paulo: Pensamento, 2010, p.34.

Divulgava sua visão política, lúcida, madura e revolucionária através de vários jornais que circulavam na Índia, InduPrakash, New Lamps for Old, Bande Mataram, KarmaYogin. Sri Aurobindo possuía, entretanto, uma maneira muito particular de enfocar a questão, colocava sobre os indianos a responsabilidade por sua situação, decorrente de fraqueza, covardia e sentimentalismo míope. Dizia que “as circunstâncias externas são frutos do que somos.” (Satprem: Sri Aurobindo Ou a Aventura da Consciência. São Paulo: Perspectiva, 2001, p.40)

Tratava-se, portanto, de por em ação os planos de emancipação, divulgando-o, preparando a revolta armada, e organizando a não cooperação e resistência passiva. Os indianos participaram do movimento consumindo somente os artigos fabricados no país (swadeshi) e  boicotando os produtos manufaturados ingleses. O movimento inspirava-se em um lema, Bande Mataram – Salve, Mãe Índia e, era visto como uma ameaça para os ingleses.

Apesar de ser porta voz de um nacionalismo radical, Dinendra Roy, professor de bengali, que conviveu com ele durante dois anos dizia que ele era franco, puro e gentil. “Seu sorriso era simples como o de uma criança, tão límpido e tão doce.” (Sri Aurobindo, a estória de sua vida, p.47)

Sri Aurobindo via com reservas o Ioga, pois considerava-o como uma ascese espiritual, que renunciava ao mundo.

“Um yoga que exige que eu abandone o mundo não foi feito para mim; e ainda acrescentou: a realização solitária que deixa o mundo entregue a seu destino é uma coisa quase repugnante.”

Satprem, p.43

Mas o poder do Ioga aproximava-se dele. Seu irmão mais novo, Barin, emissário secreto da resistência indiana em Bengala, contraiu uma febre maligna, e mesmo tratado não melhorou. Aconteceu passar por ali um sannyasi, chamado Naga. Pegou um copo de água e com uma faca fez o sinal da cruz enquanto cantava um mantra, deu a Barin para bebê-la e quase imediatamente a febre o deixou. Sri Aurobindo já ouvira falar do poder desses ascetas, mas, desta vez pôde vê-lo com seus próprios olhos e percebeu que necessitava deste poder para libertar a Índia.

“Habitava em mim um agnóstico, um ateu, um cético; não estava seguro sequer que existisse um Deus… Somente sentia que alguma verdade poderosa devia existir em alguma parte desse yoga. Portanto, quando me entreguei ao yoga e decidi praticá-lo para ver se minha ideia era justa, eu o fiz com este espírito, dirigindo-Lhe esta prece: ‘Se Tu existes, Tu conheces meu coração. Tu sabes que não peço a libertação (mukti), nada peço daquilo que pedem os demais. Peço somente a força necessária para erguer esta nação, peço somente poder viver e trabalhar para esse povo que amo”.

Satprem, p. 43

Em 1904 começou a aprender pranayama com um amigo que era discípulo de Swami Brahmananda de Chandod, praticava-o quatro, cinco horas por dia, queria forças para libertar a Mãe Índia e assim descreveu o que sentia:

Eu olho para Índia como minha mãe.

Eu a adoro e venero.

O que um filho faria se visse um demônio sentado

Sobre o peito de sua mãe, bebendo seu sangue?

Ele se sentaria calmamente para fazer as refeições e se divertir?

Ou ele correria para salvar sua mãe?

Eu sei que tenho a força para erguer essa raça decaída.

Não é um poder físico…mas, um poder de conhecimento.

A bravura do Kshatriya não é a única força,

Há o poder fogo de Brahmin,

A força espiritual do conhecimento.

Esse não é um sentimento novo para mim,

Eu nasci com ele, ele é parte de mim.

É para realizar esta grande missão que Deus enviou-me à Terra.

Sri Aurobindo, a estória de sua vida, p. 55

No ano seguinte 1905, o governo britânico assinou o ato de separação de Bengala, o que provocou uma onda de protestos, revoltas, e levantes nacionalistas em todo país. Sri Aurobindo escreveu na ocasião um pequeno livro revolucionário chamado “Bhavani Mandir” que circulou por toda Índia, levando força poética, revolucionária e espiritual para inspirar a libertação. O apelo contido no livro foi ouvido por milhares de jovens.

Em 1907 Sri Aurobindo atraído pela possibilidade de utilizar poderes yóguicos à serviço da libertação da Índia, aceitou encontrar-se com um yogue chamado Vishnu Baskar Lélé. Durante três dias exercitou uma técnica que impedia o acesso de qualquer pensamento a sua mente e teve uma experiência yogue, por ele denominada de Nirvana ou Brahman silencioso. Nela percebeu que os pensamentos vinham de fora da mente e sentiu-se como ar parado no topo de uma montanha.

“Alcançar o Nirvana foi o primeiro resultado radical do meu próprio yoga. Vi-me projetado de repente a uma condição acima do pensamento, isenta de todo movimento mental ou vital… O que ela trazia era uma Paz inexprimível, um silêncio absoluto, um infinito de liberação e libertação.”

Satprem, p.35

Sri Aurobindo permaneceu neste estado de silêncio mental, dias e noites. Pronunciou discursos e escreveu artigos de jornal imerso na paz e no vazio de si. “Na condição do Absoluto silêncio interior, prossegui com o jornal diário, e fiz uma dúzia de discursos no decorrer de três ou quatro dias.” (Sri Aurobindo, a estória de sua vida, p. 77) Ao voltar à atividade política percebeu que sua vida havia se tornado  um campo do Divino, era Deus que estava trabalhando para a realização de Seu propósito.

Em maio de 1908, Sri Aurobindo é preso e fica detido na prisão de Alipore. Suspeitavam que ele estivesse envolvido em ações terroristas, das quais seu irmão Barin participava. Em sua solitária ou em cela comum com outros presos, Sri Aurobindo passava quase todo tempo lendo o Gita e os Upanishads, meditava intensamente e, continuava seu Ioga.

Ele relatou que um mês antes havia recebido um chamado que lhe pedia que abandonasse tudo e olhasse para dentro, viu, porém que não poderia ceder a este chamado pois, seu coração estava  comprometido com a libertação da Índia. Como resistisse Ele lhe falou: “Eu tenho outra coisa para você fazer, e foi para isso que Eu lhe trouxe aqui (prisão de Alipore): para treiná-lo para Meu trabalho.” (Sri Aurobindo, a estória de sua vida, p. 81)

Em meio às angústias da prisão Sri Aurobindo conta:

“Invoquei a Deus com intensidade e ansiedade,

E orei para que Ele evitasse a perda de minha inteligência.

Naquele mesmo momento espalhou-se por todo meu ser

Uma brisa fresca e suave,

Meu cérebro relaxou…”

Sri Aurobindo, a estória de sua vida, p. 81

Ele conseguira ultrapassar a si mesmo atingindo um novo nível de consciência. “Se com Lélé, Sri Aurobindo conseguira alcançar o Brahman impessoal, o aspecto estático do Absoluto, agora veria a face pessoal do Divino: Narayana seria o símbolo escolhido para aludir ao aspecto pessoal e dinâmico do Absoluto.” (Vicente Merlo, p.36)

Eu olhava para a prisão…

E não havia mais os altos muros

Que me prendiam; não, era Vasudeva

Que me rodeava…

Eu caminha sobre os ramos das árvores;

Em frente à minha cela, mas não havia árvores;

Eu sabia que era Vasudeva, era Krisna

Que eu via lá projetando sobre mim sua sombra.

Eu olhava para as grades de minha cela

E outra vez vi Vasudeva.

Era Narayana que estava me guardando.

Sri Aurobindo, a estória de sua vida, p.82

Vários acontecimentos estranhos ocorreram na prisão. A voz de Vivekananda o instruía em meditação. E, ao perguntar a si mesmo se os siddhi seram possíveis, viu-se erguer e flutuar sem nenhum esforço. O carcereiro viu e espalhou a notícia, dizia-se, então na Índia, que Sri Aurobindo costumava sentar acima do chão.

O julgamento de Sri Aurobindo levou quase um ano. Houve 42 acusações e mais de 4.000 apresentações de prova e 222 testemunhas. Segundo Sarojini, sua irmã, ricos e pobres de todos os cantos da Índia se mobilizavam para participar de sua defesa. Ele era amado por seu sacrifício e devoção à sua Terra-Mãe.

No dia do julgamento, 5 de maio de 1909, C.R.  Das fez um discurso tão inspirado que todos os presentes foram envolvidos em sua força:

“…Muito depois que a controvérsia tiver se aquietado,

Muito depois que o tumulto e a agitação tiverem cessado,

Muito depois que ele estiver morto e partido,

Ele será considerado como o poeta do patriotismo,

Como o profeta do nacionalismo e

O amante da humanidade.

Muito depois que estiver morto e partido,

Suas palavras ecoarão e ressoarão,

Não apenas na Índia

Mas por mares e terras distantes.”

Sri Aurobindo, a estória de sua vida. p.85

Em 1910 uma voz interna instiga-o a ir a Pondicherry assinalando o fim de sua participação política.