O homem percorre o mundo sem saber quem é, e mesmos os grandes seres vivem ignorantes de sua verdadeira identidade, até mergulharem fundo na aventura de conhecimento e conquista de si mesmos. Perguntaram a Sri Aurobindo por que ele casou, e sua resposta foi:

“Você pensa que Buddha, Confúcio ou eu mesmo nascemos com a previsão de que teríamos uma vida espiritual? Enquanto se está na consciência ordinária, vive-se uma vida ordinária. Quando o despertar e a nova consciência chegam, vive-se nela e não há nada de intrigante nisso.”

Georges Van Vrekhem: The Mother. The Story of her life. Harper Collins Publishers, India, 2000, p. 107.

Não lhe agradava a ideia de que alguém fizesse sua biografia, porque ela não penetraria no aspectos interiores de sua vida, os mais importantes, e diante da insistência desse projeto disse:

“Você quer mesmo fazer minha biografia? Você acha mesmo que isso é necessário ou útil? Tal projeto está condenado ao fracasso porque nem você, nem ninguém, sabe alguma coisa de minha vida. Ela não foi vivida superficialmente para ser vista pelos homens.”

Vicente Merlo: Os ensinamentos de Sri Aurobindo. O Yoga Integral e o Caminho da Vida. São Paulo: Pensamento, 2010, p.31.

Sri Aurobindo dedicou-se para que a manifestação do espírito no homem pudesse elevar o ser mental que hoje nele predomina. Não avaliava as pessoas por seu exterior:

“O valor de um homem não depende de sua cultura, da posição, nem mesmo da atividade, mas daquilo que é e vem a ser interiormente.”

Vicente Merlo: opus cit, p.31

Sri Aurobindo nasceu em Calcultá no dia 15 de Agosto de 1872. Seu nome: Aravinda Akroyd Ghose, um nome indiano, seguido de um inglês e o sobrenome da família. Aravinda não era um nome comum na época, e lhe foi dado por inspiração de seu pai. Significava: lótus, delicado, perfumado, agradável aos deuses. Em 1894, ao escrever uma carta para sua irmã Sarojini, assinou pela primeira vez “Aurobindo”, pronúncia bengali de Aravinda. Isto acrescentou uma nova sonoridade ao seu nome que é
recitado como um mantra.

Ele nasceu em uma Índia dominada pelo Império Britânico, dividida entre os que se viam pelos olhos do Império – desqualificados econômica, social e culturalmente, e aqueles que viviam na Índia milenar, com suas superstições e sua grandeza, fragmentada em reinos dominados pelos mahajahs com costumes, línguas e particularidades locais que os definiam cultural e espiritualmente.

O pai de Sri Aurobindo era médico, e foi o primeiro bengali a atravessar o Canal do Suez, rumo a Escócia para fazer uma complementação de seus estudos de medicina. Ele compreendia as limitações e a falta de oportunidades, presentes na vida dos indianos em sua época, por isso encaminhou seus filhos para uma educação rigorosa e inglesa que os mantivesse afastados de tudo que os remetesse à terra natal. Em 1879,
os enviou para Manchester, para casa de um amigo, um ministro calvinista, Sr. Drewett, com o solene compromisso de mantê-los longe de influências religiosas.

Desde cedo, o menino Aurobindo mostrou seu gosto por literatura e línguas. Aprendeu latim com o Sr. Drewett e, em 1884 mudou para Londres onde estudou com seu irmão Manmohan na St. Paul’s School. Lá também conquistou a admiração do diretor da escola que lhe ensinou pessoalmente o grego. O objetivo de seu pai era que ele se tornasse um membro da Indian Civil Service (ICS), cargo que lhe propiciaria melhores condições de vida e respeitabilidade profissional na Índia. Rumo a este objetivo, em 1888 ele foi selecionado para uma classe especial, muito disputada pelos aspirantes a esse cargo.

Um ano depois conseguiu uma bolsa de estudos no King’s College de Cambridge. Lá completou em dois anos os estudos de filologia clássica que se cursava habitualmente em três anos. Sri Aurobindo era um gentleman, além do inglês dominava o francês, o latim, o grego, o italiano e o alemão. Leu as obras clássicas nas línguas originais. Era um devorador de livros e um estudioso do significado das palavras, buscava suas raízes, capazes de revelar o mundo e o homem que as pronunciava.

A Índia deixada distante o tocava, seu amor por essa pátria desconhecida o levou unir-se a um grupo de estudantes indianos que formavam uma sociedade secreta chamada Majlis e que tinham por objetivo lutar por uma Índia livre do domínio inglês. Ainda em Cambrigde participou de outra organização em prol da Índia livre chamada Lótus e Punhal. Estas atividades não passaram despercebidas do Indian Office.

Em 1892 passou na primeira fase do exame que o levaria ao Indian Civil Service (ICS), mas não se sentia alinhado à função que teria pela frente. Como poderia servir ao governo britânico por ele tão duramente criticado? Faltava, porém, a prova de equitação, e esta era sua chance de retirar-se da carreira sonhada por seu pai. Foi desqualificado no teste, novas chances lhe foram dadas, mas ele não se apresentou para prova no momento marcado, fechando uma fase de sua vida.

Sobre sua juventude Sri Aurobindo diz:

“…Eu fui um grande covarde. Ninguém poderia ter imaginado que mais tarde eu poderia levar a força ou levar adiante o Movimento Revolucionário. No meu caso era toda a imperfeição humana com a qual eu tinha que começar, sentir todas dificuldades, antes de encarnar a Consciência Divina.”

Sri Aurobindo. A estória de sua vida. Projeto Cultural Mãe Índia, RJ. 1990,p.33

Sri Aurobindo estava agora sem emprego, e por coincidência viajava por Londres na ocasião, o príncipe de Baroda, Sri Sayaji Ras. Um amigo de seu pai o colocou em contato com o maharaja que ficou encantado em contratar uma pessoa qualificada pelo ICS por um salário bastante baixo.

Em 12 de Janeiro de 1893, tomou em Londres o navio que o levaria de volta para a Índia.

Continua em Biografia de Sri Aurobindo II.