Às vezes parecemos com formigas que transportam cargas que têm o dobro ou o triplo de seu tamanho. Algumas vezes elas tombam sob o peso destas cargas, outras as deixam cair, mas cada uma delas age centrada em sua própria tarefa. Ao olharmos para a formiga, ela parece estar só em sua labuta. Mas, basta ampliarmos o olhar e veremos a coletividade do formigueiro, o trabalho conjunto, o caminho já traçado que cada uma percorre. Enquanto indivíduos agimos como se nossas vidas dependessem somente de nós, mas se nosso horizonte for maior, perceberemos que somos parte de uma sociedade que nos mantém e influencia mesmo quando ignoramos esse fato. O indivíduo e a sociedade dependem intrinsecamente um do outro, da mesma forma que a formiga e o formigueiro. 

Harmonia entre Indivíduo e Sociedade      

Embora pertencendo um ao outro, harmonia entre indivíduo e sociedade tem sido uma tarefa difícil, e no dizer de Sri Aurobindo a humanidade anda em zigue-zague.

“O ser humano possui dois impulsos mestres distintos: o individualista e o gregário, uma vida pessoal e uma vida social, um motivo pessoal de conduta e um motivo social de conduta. A possibilidade de oposição entre esses impulsos e os esforços para encontrar sua adequação, estão nas próprias raízes da civilização humana…”

Sri Aurobindo. A Síntese dos Iogas, Parte I: O Ioga das Obras Divinas, em tradução.
O Indivíduo e Sociedade

“O ser humano, que reivindica imperiosamente o crescimento de sua individualidade separada, sua plenitude, sua liberdade, é incapaz de satisfazer até mesmo suas necessidades pessoais e seus desejos, salvo em conjunção com outros humanos; ele é um todo em si e, contudo incompleto sem os outros.”

Ídem.

Para Sri Aurobindo, o objetivo do indivíduo não é apenas manter-se, mas expandir-se para satisfazer mais e mais suas necessidades e desejos, sejam eles físicos, vitais, emocionais ou mentais. De maneira igualmente imperiosa, “o grupo exige que o indivíduo se subordine mais ou menos completamente à comunidade, ou mesmo que perca nela sua existência independente…” (Ídem). 

Ênfase no indivíduo ou na sociedade?

A ênfase no indivíduo ou na sociedade tem criado ao longo da história acirradas divisões sociais, políticas e econômicas. E pelo que parece, o homem ainda não encontrou uma formulação adequada para se situar de forma construtiva nesse jogo intrincado de si mesmo.

Podemos perceber que esse conflito se refaz em nós constantemente, pensamos: o que será mais correto – me empenhar em minha realização ou deixá-la em um segundo plano em função dos outros? Da mesma forma perguntamos: como usar meu tempo, meu espaço, eu sou a prioridade ou os que estão ao meu redor são?

eu sou a prioridade ou os que estão ao meu redor são?

A transcendência e uma harmonia maior 

Sri Aurobindo ultrapassa esse zigue-zague integrando a estes dois polos,  um fator maior, o Transcendente. Indivíduo e sociedade são características do ser humano, mas a elas se soma a terceira e a mais determinante de suas características: a ligação com o Divino, o Transcendente, o Supremo em nós.

Ele nos diz:

“… acima e além da lei externa da sociedade, da lei moral do indivíduo… encontra-se a verdade maior de uma vasta consciência sem limites, uma lei divina em direção à qual essas duas formas cegas e grosseiras dirigem pouco a pouco seus passos trôpegos, em seu esforço de escapar da lei natural do animal e encontrar uma luz mais alta ou uma lei universal.”

 Ídem.
a verdade maior de uma vasta consciência sem limites

“… somos almas individuais capazes de contato direto com o Transcendente, essa verdade suprema de nós mesmos deve ter um caráter duplo. Essa deve ser uma lei, uma verdade que descobre o movimento, a harmonia, o ritmo perfeitos de uma grande vida coletiva espiritualizada e determina perfeitamente nossa relações com cada ser e com todos os seres na unidade variada da Natureza.”

 Ídem.

A verdadeira ocupação do ser humano

Esse termo mais alto é capaz de ultrapassar os impasses quase que insolúveis entre a ênfase no individualismo ou a primazia da sociedade em nós. Sri Aurobindo vê que este zigue-zague se resolve quando a descobrimos que: “a verdadeira ocupação do ser humano sobre a terra é expressar no tipo humano uma imagem cada vez mais perfeita do Divino.” (Ídem).

“A verdadeira relação da alma com o Supremo, enquanto ela estiver no universo, não é afirmar egoisticamente sua existência separada nem apagar-se no Indefinível, mas realizar sua unidade com o Divino e com o mundo e uni-los no indivíduo. Do mesmo modo, a verdadeira relação do indivíduo com a coletividade não é procurar egoisticamente seu progresso material e mental ou sua salvação espiritual sem preocupar-se com seus semelhantes, nem sacrificar ou mutilar seu próprio desenvolvimento no altar da comunidade, mas englobar em si mesmos as possibilidades melhores e mais completas da comunidade e distribuí-las em abundância em torno de si pelo pensamento, pela ação ou por qualquer outro meio, a fim de a espécie inteira possa chegar perto das realizações de suas personalidades mais altas.”

 Ídem.
personalidades mais altas

Vemos então que a solução de Sri Aurobindo não ocorre pela escolha de um polo em detrimento do outro, mas pela elevação do homem a uma dimensão maior de seu próprio  ser, capaz de integrar e harmonizar a necessidade de realização pessoal com o desenvolvimento e elevação da sociedade.

Links

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O Caminho do Ioga

A Vida inteira é Ioga

O que é o Ioga?

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