“Uma doença é sempre expressão e tradução exterior de uma desordem, de uma desarmonia do ser interior; a não ser que esta desordem seja sanada, a cura exterior não pode ser total e permanente.”
A MÃE: Saúde e Cura no Yoga. São Paulo: Shakti, p.13. Como todas as notas deste texto terão por referência o mesmo livro, apontaremos ao lado de cada uma delas, o número da página.
A saúde depende de um equilíbrio básico entre o físico, o vital (desejos, sentimentos, paixões), o mental e o espiritual. Ficará difícil cuidar da saúde física com um vital atordoado por sentimentos de atração e aversão, medo, raiva, e por um constante vai e vem emocional, que lhe rouba a energia e o centro. Por outro lado, uma mente obscura que repete sem controle situações limitadoras e depressivas, esgota o físico e o vital.
A desordem e a desarmonia não ocorrem apenas na relação entre os aspectos internos e externos de um indivíduo, dão-se em uma relação mais ampla que inclui as outras pessoas, o ambiente e as forças da natureza.
“(…) as dificuldades que estão dentro também estão fora. Podemos até certo ponto estabelecer um equilíbrio interior, porém vivemos em ambientes cheios de desequilíbrios… Você dá e você recebe, você respira e você absorve. Assim há uma mistura, e é por isso que se pode dizer que tudo é contagioso, porque vivemos num estado de vibrações incessantes.” (p.77)

Essa troca constante de vibrações segue uma lei de afinidade, as vibrações de um tipo ou outro são atraídas porque em alguma parte de nosso ser há uma identidade com elas. Não podemos decidir, simplesmente, quais as vibrações que queremos próximas ou distantes, elas têm relação sincera com a totalidade de nosso ser, e são independentes de nossa vontade.
Apesar das causas internas e externas de desarmonia, o corpo tem a noção de sua própria força, aspira pelo equilíbrio e é capaz de restabelecê-lo.
“O corpo carrega dentro de si a certeza da cura, a certeza de que a doença ou a desordem certamente desaparecerão. Apenas pela educação falsa do ambiente em que se vive é que, gradualmente, o corpo é ensinado que há doenças incuráveis, acidentes irreparáveis, que se pode envelhecer, e todas essas histórias que destroem sua fé e confiança.” (p.76)
A Mãe refere-se a um corpo visto em sua dinâmica superior, em possibilidades que lhe são próprias, mas que lhe são negadas ou diminuídas por questões subjetivas e pela própria história da humanidade, e por isso pode sofrer o ataque de forças desagregadoras.
“Esteja sempre no ápice de sua consciência e o melhor sempre lhe acontecerá. Porém, isso é um máximo que não é fácil alcançar. Se essa condição ideal tornar-se irrealizável o indivíduo pode, pelo menos, quando confrontar um perigo ou uma situação crítica, apelar para seu destino mais elevado pela aspiração, pela prece, abandonando-se confiante à vontade divina. Então, na medida da sinceridade de seu apelo, este destino superior interferirá de modo favorável no destino normal do ser e mudará o curso dos acontecimento naquilo que lhe concerne pessoalmente.” (p.66/67)

Importante destacar duas questões no texto:
Primeiro: O corpo possui fé e confiança em seus processos. “Conhece”, por dentro, sua força, flexibilidade e capacidade de restabelecer-se diante de desequilíbrios. Ele “sabe” de sua participação de base no desenvolvimento da consciência humana. Sua confiança decorre do projeto divino que ele próprio é.
“O corpo carrega dentro de si o senso de sua própria divindade.” (p.77)
Segundo: Quando A Mãe nos pede para que em casos de infortúnios e doenças graves apelemos à prece e nos abandonemos a vontade divina, ela está se referindo a um outro recurso de valor inestimável de que dispomos – a Graça.
“Há uma Justiça Universal que é um determinismo lógico do movimento da Natureza Universal. As doenças são este determinismo aplicado ao corpo material… A Graça divina tem o poder de interferir e mudar o curso da Justiça Universal.” (p.63)

Fomos habituados a considerar que o determinismo é o comando maior de nossas vidas. A Mãe, porém, nos ensina a desfrutar do poder da Graça. Ela pode transcender determinismos, ela pode dar um rumo de liberdade e leveza a situações que pareciam fechadas e isto não decorre de um milagre, mas de uma elevação de consciência que nos permite atuar em um plano superior que ainda acessamos pouco, mas que faz parte de nosso ser.
Sabendo que a confiança e o otimismo governam as células de nosso corpo, e que temos possibilidade de atuar na esfera da graça, abrimos novos horizontes de relação com o corpo e com a vida. Com isso não se quer negar a realidade da doença, do sofrimento e da morte, mas abrir possibilidades de relações mais fortes e positivas, que possuem uma estrutura maior para enfrentar momentos difíceis.
* Recomendamos que os textos do blog sejam lidos duas ou três vezes, se possível com intervalo entre as leituras. Percebemos que cada vez que retomamos um texto de Sri Aurobindo ou da Mãe, ele nos ensina algo que ainda não havíamos notado.