Se quiséssemos fazer uma disputa entre a agitação e a concentração em nossa vida, a agitação que nos dispersa ganharia de goleada. Reunir os fios dispersos de nosso ser é uma tarefa que precisa ser sempre recomeçada. Somos guiados pela mente e com ela expostos a divisão, pois a mente fragmenta para conhecer. Ela também nos vincula ao mundo exterior, uma vez que opera grandemente em função dos sentidos.

Dispersar e concentrar são movimentos característicos do ser humano. O ímpeto que nos move para fora, centrífugo e fragmentador, tem sua validade na produção dos conhecimentos e ações nos movem no mundo externo. Ao lado desse movimento centrífugo, possuímos de forma “inata e orgânica” o aspecto centrípeto, o desejo de interioridade que nos concentra e põe em contato com nosso mundo interno. Harmonizar a dispersão centrífuga e a concentração centrípeta aparece ser um dos grandes desafios de nosso tempo.

A concentração para Sri Aurobindo

Sri Aurobindo nos diz que “normalmente a consciência está espalhada por toda parte, dispersa, correndo para cá e para lá, atrás deste sujeito e daquele objeto sem parar. Quando algo da natureza concentrada deve ser realizado, a primeira coisa que se faz é chamar de volta essa consciência dispersa e concentrar-se. Concentração significa fixar a consciência em um só lugar ou sobre um só objeto ou em um único estado…” Ou como diria a Mãe: “Concentração é trazer de volta todos os fios espalhados da consciência a um único ponto, uma única ideia.”

Para Sri Aurobindo “o primeiro passo da concentração é habituar a mente sempre divagadora a seguir fixamente, sem vacilar, um único pensamento coerente sobre um único assunto; e isso ela deve fazer sem se deixar distrair por todas as seduções e apelos alheios que chamam sua atenção.” Isso exige ultrapassar o apelo dos sentidos, os desejos, e a própria mente dispersiva. Feito isso podemos dar mais um passo e sair da pluralidade das informações sensoriais, passamos, então, a um processo mais profundo que necessita de uma imersão maior no objeto visado para que possamos nos aproximar do núcleo central que explica seu modo de ser e funcionar. Com isso teríamos:

“O começo das Ciências, o exame das verdades das forças cósmicas presente aos dados com que nossos sentidos as apresentam.
O começo da Filosofia que é o exame do princípio das coisas que nossos sentidos traduzem falsamente.

O começo do Conhecimento Espiritual que é a recusa em aceitar as limitações da vida dos sentidos, ou tomar o visível e o sensível como algo mais que os fenômenos da Realidade.”

Tanto a Ciência, a Filosofia, e o Conhecimento Espiritual buscam ultrapassar o dado imediato apresentado pelos sentidos rumo a um conhecimento mais profundo que necessita de uma disciplina interna, de atenção, discriminação e compreensões maiores, só obtidas pela concentração.

Seria a concentração uma perda de tempo?

Na correria para dar conta dos tantos compromissos e apelos do mundo externo, a concentração que implica parar, aquietar, silenciar, pode parecer algo inútil, decorativo, sem importância, mas em uma análise mais profunda percebemos que nossa força provém de um retorno constante ao centro. Nele tomamos consciência de quem somos e o que fazemos no mundo. O fato de estar sempre do lado de fora nos esgota, põe nossos nervos à flor da pele, cria em nós um estado de agitação perturbador. Nesse contexto a concentração é um recurso existencial, psicológico e espiritual poderoso, que nos leva dentro, e no silêncio, nos devolve a força e a paz.

Bibliografia
Sri Aurobindo. A Síntese do Ioga. São Paulo: Editora Pensamento,2021, p.288/296
Sri Aurobindo e Mãe: Ananda Especial, Concentração, Ano 28, nº5. Casa Sri Aurobindo.