Para falarmos sobre a Dualidade do Bem e do Mal e Evolução, precisamos ler cuidadosamente a afirmação de Sri Aurobindo:

“Uma consciência limitada crescendo a partir da insciência é fonte de erro, um apego
pessoal à limitação e ao erro que ela origina é fonte de insinceridade, uma consciência
falsa governada pelo ego vital é a fonte do mal.”

Sri Aurobindo. A Vida Divina. Uma Visão da Evolução Espiritual da Humanidade.São Paulo:
Pensamento, 2018. p.565.

Nesta frase Sri Aurobindo descreve condições inscritas no âmago do ser humano, condições ontológicas que o levam ao erro, à falsidade / insinceridade / mal. Com essa abordagem o autor modifica a questão do mal como um problema moral ou religioso, para inserí-la no próprio ser, na existência do ser humano. Ou seja, o homem vê, julga e age a partir de uma consciência limitada, uma consciência ainda incapaz de perceber a unidade de seu próprio ser e a unidade de sua relação com os outros, daí toda espécie de enganos, conflitos e maldades.

Paradoxos do ego limitado

Nesse sentido, dando-nos elementos para esclarecer essa limitação, diz Sri Aurobindo:

“O ego
individual é…, uma tradução do self secreto nos termos da consciência de superfície ou
um substituto subjetivo do verdadeiro self, em nossa consciência de superfície. A
ignorância o separa do self do outro e da Divindade interior…”

A frase é estranha porque, segundo o autor, operamos em uma percepção de nós mesmos que não atinge aquilo que somos, nosso self de superfície é um substituto subjetivo de nosso verdadeiro self. Somos e agimos através de uma imagem limitada de nosso verdadeiro ser, que permanece em segredo para nós. Na frase o autor nos aponta duas características deste “substituto subjetivo” que age na ignorância do verdadeiro self:

1 – Ele nos separa do outro. Isso cria em nós um paradoxo, porque limitado ao próprio ego, ele vê o outro como ameaça e como tal procura dominar, explorar e submeter o outro a si; por outro lado, em ressonância com seu self verdadeiro, ele quer proximidade e unidade com o outro, deseja sua companhia, deseja seu amor.


2 – Ele nos separa da Divindade interior. Isso cria outro paradoxo para nossa existência, porque segundo Sri Aurobindo: “Ele (o homem) é empurrado secretamente em direção a uma unificação evolutiva na diversidade; embora finito, o ego tem por trás o impulso para o infinito.” Pequeno e fragmentado, pobre e limitado porque não conhece sua Divindade interior, o homem age de forma inadequada perante si mesmo e diante dos outros. Apartado de seu interior o homem lança-se mundo material e finito como se esta fosse sua única opção, mas esta opção não é capaz de aplacar sua vontade infinita de uma vida plena e de um valor infinito pelo qual valha a pena existir.

A Natureza aproveita do bem e do mal para evoluir

Sendo assim, é dentro desse quadro ambíguo de bem e mal, procedente da própria abordagem limitada que o homem faz de si mesmo e de tudo que o cerca, que a Natureza trabalha para sua evolução.

“A intenção evolutiva age por meio do mal e por meio do bem; tem que utilizar tudo…; ela utiliza todos os materiais disponíveis e faz com isso o que pode: essa é a razão pela qual vemos o mal surgir daquilo que chamamos bem e o bem surgir daquilo que chamamos mal…”

Questionamos constantemente, como situações doentias, maldosas, injustas podem gerar algo bom? Como outras situações construídas com o propósito de construir o bem podem produzir desastres? Como a intenção secreta aproveita bem e mal e através dessas experiências produz aperfeiçoamento e evolução?

Nesse espírito fica a pergunta de Sri Aurobindo: “Mas de que modo essa intenção evolutiva na Natureza deve cumprir-se, por qual poder, qual meio, impulso, princípio e processo de seleção e harmonização?” Continuaremos essa reflexão no próximo post dedicado a Sri Aurobindo: Dualidade do Bem e do Mal e Ser Psíquico.

Links

Por último, listamos alguns textos relacionados em nosso blog:

A Dualidade do Bem e do Mal e o Ser Vital

Educação do Vital

O Caminho do Ioga

Ioga Integral: Indivíduo e Sociedade

Você também pode se interessar pelo trabalho da Casa Sri Aurobindo.