As pessoas com quem convivemos não estão em nosso caminho por acaso. São aquelas a quem mais podemos ajudar, ou aquelas que nos ensinam de alguma forma.

Quem quer conhecer-se e relacionar-se de forma consciente, deve investigar tanto as razões mais aparentes, quanto as mais profundas pelas quais encontramos e convivemos com determinadas pessoas. Com o evoluir da consciência, o encontro assume um significado especial porque nele descobrimos um lugar de autoconhecimento e transformação. Pois, o outro é o espelho através do qual descobrimos quem somos e como nossas ações, pensamentos e sentimentos atuam para elevar ou para apequenar a vida das pessoas que convivem conosco. No encontro somos desafiados a um exercício contínuo de compreensão, paciência e perdão. Este exercício é benéfico porque através dele podemos superar progressivamente o ego que tende ser muito autocentrado em todos nós.

Por que me aproximo de alguém?

Aproximar-se ou afastar-se de alguém é um jogo complexo que envolve em nós diferentes estados de ser: o físico, o vital, o mental e o espiritual. Estes estados atuam sobre nós, nos dirigem para as outras pessoas, sem que saibamos ao certo por que elas nos atraem, qual o poder que elas possuem sobre nós, e como lidar de maneira saudável com essas relações. Embora os estados de ser que agem em nós se alternem conforme o tipo da relação experimentada, sempre há um foco em torno do qual se organizam.

Como estamos em um corpo físico, ele é o principal mediador entre nossos encontros. Há ocasiões em que ele se torna o centro das relações, por exemplo, na maternidade / paternidade que se destina a criar, sustentar e defender a vida física.

O contato vital ocorre entre pessoas que pulsam de maneira semelhante, nelas o poder da vida se manifesta e combina de maneiras variadas, os impulsos e desejos se atraem e dão maior sabor e colorido à vida. Como nosso autoconhecimento é precário e o vital une sentimentos, paixões, emoções, forças de atração e rejeição muito poderosas, ele tende a se tornar o pólo mais importante nas relações.

O contato mental provém de capacidades e afinidades semelhantes e complementares no plano do conhecimento, dos conceitos, idéias e visões de mundo. Possui um compromisso com a verdade que se mostra com relevância na ciência, na filosofia e em padrões éticos que relacionam verdade e bem e se ampliam à medida que a mente se desenvolve.

As relações centradas no psíquico ocorrem entre pessoas que se descobriram espiritualmente e possuem aspirações convergentes, no sentido de conhecer e cultivar o eterno em si mesmas.

Duração das relações

Existem contatos que respondem a interesses ou atrações imediatas que podem nos aproximar momentaneamente, mas não conseguem sustentar relações mais significativas onde a sinceridade, a fidelidade e a continuidade predominam. A duração de um contato entre pessoas depende da quantidade e da qualidade dos estados de ser em que as afinidades entre elas estejam presentes. Algumas pessoas nos são próximas nos quatro modos de existência ao mesmo tempo. Elas são nossas amigas no sentido mais profundo da palavra. Com estas pessoas as relações são leves, compreensivas e duradouras. Existem outras, raras, capazes de comungar com a essência eterna que cada um traz em si. Estas relações unem almas e se estendem por toda a vida, e podem mesmo ultrapassar o tempo.

O ser psíquico e relações verdadeiras

De maneira geral avaliamos nossas relações a partir de nosso ser de superfície. Essa atitude não considera com o devido cuidado o ser psíquico ou a alma em nós, de onde provém as informações mais valiosas e mais puras que podemos ter sobre a outra pessoa e sua relação conosco.

Possuímos uma sensibilidade que nos permite perceber as pessoas que possuem uma aspiração semelhante à nossa, e podem tornar-se companheiras de nossa vida. Do mesmo modo, esta sensibilidade nos informa sobre aquelas que seguem de maneira diferente, ou que carregam forças hostis e podem nos prejudicar.

A atenção ao ser interno constitui uma grande conquista para nós. Ele nos permite agir com fidelidade ao nosso ser mais autêntico e profundo. Ele é um conselheiro sábio e sempre disponível para melhorarmos a qualidade de todas as nossas relações. Sem essa atenção delicada e dedicada a ele, nossas relações dão-se ao acaso porque não sabemos nem quem somos e nem o que seria valioso construir na relação com o outro.

Reflexões elaboradas a partir do texto das páginas 280/282 do livro Becoming One. The Psychology of the Integral Yoga. A Compilation from the Mother’s Writings. Pondicherry: Sri Aurobindo Ashram.

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Eu e os outros

Educação de si, Educação do outro

Ioga Integral: Indivíduo e Sociedade

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