As flores nos tocam. Com a mesma graça, enfeitam um barraco ou uma mansão. Em qualquer lugar, simbolizam a abundância e a beleza da vida e, com generosidade, alegram o ambiente com suas cores e perfumes. Existe uma realeza na flor: ela coroa a planta através de seu modo delicado e silencioso de ser.   

A Mãe apreciava a espontaneidade das flores. 

“Quando uma rosa floresce o faz tão espontaneamente, pela alegria de ser bela, de cheirar docemente, de expressar sua alegria de viver, e o faz de forma não calculada, não tem nada a ganhar com isso, ela o faz espontaneamente na alegria de ser e viver.”  

The Mother. Flowers and Their Messages. Pondicherry: Sri Aurobindo Ashram Publication Department, p.I

Por um breve período de tempo, a criança tem a mesma espontaneidade de uma rosa, de uma flor, e o fato de não estar consciente da própria graça a faz ainda mais encantadora. Uma criança não calcula o efeito que suas ações produzem nos outros.

“O movimento desinteressado, não calculado, é uma das mais belas formas da consciência física no mundo.”  

Ídem

Logo, porém, a criança ganha noção de si e de sua influência, e então seus gestos, sorrisos e falas perdem a gratuidade e geralmente se movem visando reconhecimento, aprovação e recompensas. 

“Com a inteligência vem toda habilidade e esperteza, corrupção e cálculo.” 

Ídem

Quanto maior for a escala da atividade mental, menor se torna a espontaneidade, porque, segundo A Mãe, a maioria das pessoas tenta obter vantagens de sua beleza e inteligência, utilizando-as como instrumentos para possuir as coisas e desfrutar da admiração dos outros. 

As flores são espontâneas porque não possuem mente, agem através da Consciência, Força e Amor universais. Embora o florescimento humano continue a depender dessas forças, o homem sente toque da individualidade, da mente e do ego que criam em si a ilusão de separação. Sentindo-se separado, ele “parece” depender somente de seu esforço. E esse depender de si produz no homem a necessidade contínua de garantir-se e, por isso, suas ações visam constantemente obter “coisas”. 

A Mãe, porém, nos diz que o homem pode elevar-se e “fazer conscientemente aquilo que a rosa faz inconscientemente…” 

Ídem, p.I

O homem pode reconquistar a espontaneidade de forma consciente, em uma dimensão mais profunda e mais bonita do que a que existe na rosa.  O homem pode voltar a ser espontâneo se suspender a visão concentrada em si, e no interesse e no poder que circulam em torno de de suas ações.

Neste caso, a espontaneidade passa a revelar grandeza e significa que ele conseguiu ultrapassar a separação que sua mente e seu ego criaram   provisoriamente nele. Significa, também, que agora ele possui liberdade para se descentrar e mostrar sua beleza e capacidade sem se envaidecer, ou tentar ganhar coisa alguma através delas. 

A espontaneidade é o movimento no puro dom de si, na alegria de contribuir com a vida que destina todos ao florescimento.

* Recomendamos que os textos do blog sejam lidos duas ou três vezes, se possível com intervalo entre as leituras. Percebemos que cada vez que retomamos um texto de Sri Aurobindo ou da Mãe, ele nos ensina algo que ainda não havíamos notado.