Título do capítulo VI de A Vida Divina
Existe um papel para o homem no universo?
Quem somos nós diante do universo?
Para Sri Aurobindo, o universo e o homem são parceiros. Essa parceria vem de uma origem comum, o mesmo Divino os criou. O Universo O manifesta em sua difusão, o homem em sua concentração.
“O Universo é uma difusão do Todo Divino no Espaço e Tempo infinitos, o indivíduo é sua concentração dentro do Espaço e Tempo.”
Sri Aurobindo. A Vida Divina: uma visão da evolução espiritual da humanidade. São Paulo: Pensamento, 2018, p.66.
A difusão do Divino no Universo e Sua concentração no Homem expressam:
1- O Divino como Existência, Consciência/Força, Beatitude.
2 – Suas criaturas como portadoras dessas características ainda que de forma latente.
3 – A aspiração de cada criatura no sentido de revelar plenamente as características divinas que estão veladas em si.
4 – O homem como “uma “autoconcentração consciente do Todo por meio da qual a aspiração pode acontecer.” (Idem)

A presença das características divinas dá-se em toda a natureza, mas aparece como um fenômeno inconsciente, porque o portador não sabe que as traz consigo, tem-se como exemplo a reflexão da luz no diamante, ou no espelho d’água.
Ele é um microcosmo onde as coisas podem se apresentar de forma consciente. Nele, segundo Sri Aurobindo, dá-se a aposta de todo universo: espera-se que em um futuro lapidado pela evolução, Divino Universal e Transcendente possa refletir-se de forma autoconsciente no homem.
No homem isto se modifica porque é dotado de consciência. Desde cedo o homem percebe que o Divino o transborda, o encanta, o inquieta e questiona. Ele O sente, O “sabe”, e desenha sua história pessoal e coletiva, na tentativa de expandi-Lo, decifrá-Lo, negá-Lo, sem jamais conseguir separar-se desta presença.
Sri Aurobindo, retomando os Vedas, chama esta manifestação autoconsciente do Divino na Matéria de: “Emergir luminoso” (Ídem, p.63.).
“A ascensão à Vida divina é a jornada humana, a Obra das obras, (…) É a única tarefa real do ser humano no mundo e a justificação de sua existência, pois sem isso ele seria apenas um inseto rastejando, entre outros insetos efêmeros, em um pedacinho de superfície de lama e água que conseguiu se formar em meio às espantosas imensidões do universo físico.”
(Ídem, p.64.)

O desafio do homem é ultrapassar-se, sua consciência deve expandir-se e elevar-se porque o universo é imenso e aposta nele para se iluminar, autoconhecer e transcender. “Sem isso ele perderia seu objetivo, o problema que lhe foi posto não seria resolvido, a obra divina para qual ele aceitou nascer não se realizaria.” (Ídem)
O papel atribuído ao homem é também sua tarefa e seu mistério, porque nele o universo se concentra permitindo: “O devenir da infinita Beatitude-Existência-Consciência na mente, na vida, no corpo…” (Ídem p. 64)
Sua meta é, portanto, encarnar o Divino, tendo consciência de que o faz e deleitando-se por isso. Esta é sua dignidade e sua missão, objetivos menores podem despertar sua motivação por pouco tempo, mas facilmente se transformam em decepção e perda de sentido, porque são pobres, pequenos diante do futuro imenso e brilhante para qual nasceu.
* Recomendamos que os textos do blog sejam lidos duas ou três vezes, se possível com intervalo entre as leituras. Percebemos que cada vez que retomamos um texto de Sri Aurobindo ou da Mãe, ele nos ensina algo que ainda não havíamos notado.