O lugar do homem na evolução não é um papel passivo de quem assiste a um acontecimento, mas um papel ativo que implica em liberdade, aprofundamento de consciência e vontade para assumir cada vez mais o aperfeiçoamento de si próprio.
Queremos ser jovem, viver sem sofrer ou morrer, queremos sabedoria, amor e plenitude. Cada pessoa é testemunha destes desejos que ultrapassam o que se poderia chamar de antigo ou moderno. Como estes desejos nascem e persistem no homem, mesmo tendo uma experiência repetida de dor, doença, envelhecimento e morte? Por que não aceitar esta experiência que parece acabar com os sonhos e terminar de forma tão decepcionante?
Ser homem é travar incansavelmente a batalha entre estas duas frentes igualmente poderosas. A primeira é sua aspiração por Luz, Liberdade e Imortalidade que aparece, segundo Sri Aurobindo, como um “instinto ou intuição que persiste na humanidade” (Sri Aurobindo. A Vida Divina: uma visão da evolução espiritual da humanidade. São Paulo: Pensamento, 2018, p.28.) A segunda é a constatação da precariedade de sua vida. Sri Aurobindo chama de instinto a aspiração do homem por plenitude, porque ela nasce igualmente em todo ser humano, mas usa também o termo intuição para se referir a esta aspiração, porque de alguma forma o homem “sabe” internamente que a precariedade não é sua forma mais autêntica de ser, e por isso se mantém no desejo e esperança de liberdade, plenitude e felicidade.

Sri Aurobindo percebeu que “todos os problemas da vida são essencialmente problemas de harmonia” (Ídem, p. 26.). Mostrou que situações aparentemente opostas podem se revelar perfeitamente harmônicas em sua trajetória evolutiva, e chegou a resultados referendados pela ciência hoje. Como pensar a harmonia entre a matéria e a vida? Como a vida ativa e flexível cabe na condição da inércia na matéria? Como o pó das estrelas produz a diversidade da vida? No entanto foi isso que ocorreu durante a evolução – a vida se instalou sobre uma base material e criou nela um novo patamar. Mas pode-se avançar na questão e perguntar: Como a mente e a vontade conscientes aconteceram sob o pano de fundo de uma vida “mecânica e subconsciente”?
A evolução da Vida na Matéria, e da Mente na Vida só se explicam, segundo o autor, se aceitarmos que:
“A Vida já existe involuída na Matéria e a Mente existe involuída na Vida, porque a Matéria é em essência uma forma de Vida velada, Vida é uma forma de Consciência velada.”
Sri Aurobindo. A Vida Divina: uma visão da evolução espiritual da humanidade. São Paulo: Pensamento, 2018, p.27.
Seguindo o raciocínio, a própria Mente, segundo Sri Aurobindo, será ultrapassada por um além da Mente, onde:
“O impulso invencível do homem em direção a Deus, Luz, Beatitude, Liberdade, Imortalidade encontra-se no lugar certo da cadeia… Assim como o impulso em direção à Mente estende-se desde as reações mais sensitivas da Vida mineral e na planta até chegar à sua completa organização no ser humano, assim também há no ser humano a mesma série ascendente , a preparação, ao menos, de uma vida superior e divina. O animal é um laboratório vivo, no qual, assim foi dito, a Natureza elaborou o homem. O próprio homem pode bem ser um laboratório vivo e pensante no qual, e com a colaboração consciente do qual, ela quer elaborar o supra-homem, o deus. Ou não poderíamos dizer, então, manifestar Deus?”
Ídem, p.27.
Seria o caso de se pensar nesta consideração de Sri Aurobindo que diz que o homem pode ser “um laboratório vivo e pensante para se ultrapassar o próprio homem”, porque é nesta perspectiva que se projeta o vetor evolutivo. A limitação temporal dificulta a compreensão de sermos um grande laboratório vivo, assim como seria inimaginável que o animal estivesse, em outros tempos, elaborando o homem. O resultado de plenitude que se propõe nos parece tão distante e inatingível. Observando-se, porém, a história do homem percebe-se um impulso invencível atuando tanto no indivíduo, quanto na sociedade que se dirigem a perfeições progressivas. Este laboratório humano é ainda uma condição inconsciente para a maioria das pessoas. Sri Aurobindo lança, porém a possibilidade de se ultrapassar esta condição inconsciente e, então “com a colaboração consciente” do homem elaborar o supra-homem.
Esta é uma possibilidade nova e desafiadora porque nela o homem está convidado a participar de forma consciente no seu processo evolutivo, o que contribuiria para a evolução da Natureza como um todo. Isto permite a compreensão da precariedade como um lugar provisório que o homem ultrapassará, e o fará de maneira mais leve e eficiente, quando se tornar consciente de seu papel na evolução e trabalhar disponibilizando seus recursos para acelerar este processo. Esta é a forma pela qual o homem, laboratório vivo, pode harmonizar a precariedade da vida com seu desejo insaciável de plenitude. Transformações radicais já foram efetuadas na passagem do reino mineral para o vegetal, e deste para o animal. Outro grande salto ocorreu na passagem para o humano e o mesmo trabalho de superação e aperfeiçoamento se desenvolve em silêncio para que o homem ultrapasse o próprio homem e possa então realizar seu desejo de vida plena.
* Recomendamos que os textos do blog sejam lidos duas ou três vezes, se possível com intervalo entre as leituras. Percebemos que cada vez que retomamos um texto de Sri Aurobindo ou da Mãe, ele nos ensina algo que ainda não havíamos notado.