Sri Aurobindo no Brasil, uma história:

No dia 29 de fevereiro de 1956 a Mãe teve a experiência da descida da Supramente sobre a terra. A experiência foi decisiva e descrita por ela da seguinte maneira:

Esta tarde a Presença Divina, concreta e material, estava aqui, presente no meio de vocês. Eu tinha uma forma de ouro vivo, maior que o universo, e estava voltada para uma porta dourada imensa e maciça, que separava o mundo do Divino. Quando olhei para a porta eu soube – e quis – em um único movimento de consciência, que “o momento havia chegado” e, suspendendo com as duas mãos um martelo dourado e poderoso eu golpeei, dei um único golpe na porta e a porta despedaçou-se. Então, a Luz, a Força e a Consciência supramentais despejaram-se sobre a terra em um fluir ininterrupto.

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Esse dia foi o começo de algo inesperado e essa energia, embora intangível, provocou grandes movimentos universais transformadores. Não milagrosos como as pessoas entendem e esperam, muitos deles nem mesmo visíveis ou reconhecíveis, mas suas grandes ondas balançaram o próprio núcleo das organizações sociais existentes.

Como dito acima, o ano foi 1956. Resultado dessa onda, a década de 60 tornou-se um marco na civilização ocidental, e o eco de seus movimentos ressoou planetariamente. A juventude, os artistas, os pensadores aderiram a algo que desconheciam, e deixaram-se conduzir por uma energia que estava no ar e que, sem ser identificada, movia o mundo que, desde então, nunca mais foi o mesmo.

Aqueles que sabem ver por trás das coisas viram que a descida da força supramental provocou também reações do baixo, do mundo mais obscuro, forças que não podem suportar a Luz e que, mesmo se sabem que não podem sair vitoriosas, farão todo o possível para retardar a Vitória. Um movimento conservador, brutal, ignorante, ergueu-se politicamente em muitas partes do mundo. Na América do Sul vimos ditaduras, torturas, sofrimentos que duraram algumas décadas. Mas a força supramental trabalha e, como ela é a Luz da Verdade, uma vez que fez sua descida tudo tem que ser posto sob essa Luz. O mais feio, mais obscuro, mais vil, deve ser visto e exposto à Luz.

O Brasil daquela década viu a construção de Brasília, que fez o país vibrar. Mais tarde, no outro lado do mundo, mas na mesma década, no Sul da Índia, Auroville nasceu. Naquele período, em muitas partes do mundo, tudo parecia possível.

Mas a obscuridade, a resistência à Luz, não descansa. Também na mesma década o Brasil mergulhou no período mais obscuro de sua história. Com seu ser ainda criança, o país sofreu duros revezes. Porém, sua arte, sua aspiração, seu entusiasmo ainda ingênuo, resistiram. Sua arte, sobretudo sua música, nunca foi tão rica e desafiadora, seus jovens ocupavam as ruas e moviam-se afrontando seus medos, seus intelectuais, professores, artistas, políticos progressistas desafiavam a força bruta com a sutilidade de sua arte, de seu pensamento e de suas obras.

Em algum momento, em Salvador da Bahia, algo bem diferente, mas um resultado da mesma onda, começou a nascer, entre a metade e os últimos anos daquela década. Algo pequeno, insignificante em aparência, cheio de significado para aqueles que sabiam ver. Isso aconteceu no Departamento de Dança da Universidade Federal da Bahia.

Por sua energia, suas belezas naturais, sua arte vibrante e criativa, a Cidade de Salvador atraía jovens, artistas, buscadores de várias partes do Brasil. Naquele momento, na Escola de Dança da Universidade Federal do estado, um jovem dançarino alemão explorava seus mundos interiores, e tentava criar no mundo da dança uma realidade física para esses mundos.

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Seu destino o havia levado a Pondichery, ao Sri Aurobindo Ashram, onde ele viu a Mãe pela primeira vez e o fez encontrar o Ioga de Sri Aurobindo. Ele decidiu viver no Ashram Sri Aurobindo e lá permaneceu por quase um ano, tudo lá o atraia, mas seu chamado maior o trouxe de volta ao Brasil, uma necessidade de comunicar a outros essa descoberta, essa nova maneira de ser, essa nova vida que Sri Aurobindo e a Mãe anunciavam. Seu nome era Rolf Gelewski, um ser de grande intensidade – sua busca o conduzia, seu fogo interior ardia e contagiava. Uma aspiração inabalável o definia. De volta à Escola de Dança suas aulas, sua dança, suas coreografias, passaram a ser outra coisa, a usar outros elementos, intangíveis, sutis e, ao mesmo tempo, reais. Entre esses outros elementos, ele nos trouxe a música de Sunil Battacharya, músico do Ashram, que explorava sons novos, que poucos conseguiram assimilar. Um som espaçoso, com intensidades que despertavam emoções não conhecidas, bem distantes daquela emoção-padrão situada apenas sob a pele. Essa era uma música que transportava a níveis jamais experienciados até então, conduzia-nos para dentro ao mesmo tempo que nos projetava em um espaço cósmico.

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Rolf identificou-se profundamente com essa música, que o ajudava a dar forma a essa nova maneira de dançar e o conduzia na exploração de seus mundos interiores. Isso já não podia mais ser definido como “dança” no sentido convencional do termo. De fato, ele a denominou “Dança Espontânea”.

Poucos viram a grandeza desse movimento, da busca por trás daquelas mudanças, Rolf foi criticado e suas escolhas questionadas, mas ele, impassível, continuava.

Na Escola de Dança ele criou uma disciplina, a “Filosofia da Dança”. Essas aulas aconteciam no final do dia, duravam uma hora. Nelas, ele pacientemente abria novos horizontes a seus alunos, conduzia-os a pensar de outra maneira, de fato, ele nos ensinava a pensar…

Aos poucos, estudantes de outras áreas começaram a frequentar essas aulas, porque sentiam que ali havia algo de novo, algo que brotava em meio à dureza e ao controle de um governo militar implacável. Éramos todos jovens, irreverentes, influenciados pelo movimento hippie e ao mesmo tempo sufocados por uma ditadura malvada e arbitrária.

As aulas eram vivas, interessantes, cheias de respostas a antigas perguntas que nunca haviam encontrado respostas. Logo ficou claro que o tempo era curto para todo aquele interesse, e Rolf propôs que aquele intercambio continuasse em sua casa, aos sábados à tarde. Ele nos recebia em seu austero apartamento voltado para um vasto terreno cheio de verde, onde alguns gatos moviam-se livremente. Havia sempre bolo, café, algumas vezes müesli e também um chá que ele preparava no estilo indiano. Ele nos falava da Índia, de Sri Aurobindo e da Mãe, e nos contou a história de Savitri.

Havia uma pureza naqueles momentos, era bonito, sem intenções, algo que fluía e se deixava ser… por trás do visível, algo se preparava.

A comunidade que se formou e se tornou a Casa Sri Aurobindo nasceu ali, fruto daqueles encontros semanais. Muitos que fizeram parte do movimento inicial se foram e outros vieram. Esse fluxo foi sempre um traço natural, saídas e chegadas, permanências mais ou menos longas e, aos poucos, um núcleo se formou.

Rolf via longe, conectava-se com a energia do futuro e, seguindo essa direção, a Casa Sri Aurobindo aos poucos tomou forma. Criou-se uma revista com um nome ousado para aquela época: Ananda. Nela foram publicados trechos curtos traduzidos de obras de Sri Aurobindo e da Mãe em português. E em 1972, ano do centenário do nascimento de Sri Aurobindo, foi lançado um número especial da revista, dedicada ao Mestre. A revista foi levada por membros da Comunidade a diversas partes do Brasil, em um primeiro movimento de expansão e divulgação.

Casa Sri Aurobindo

O trabalho da CASA, que tinha a comunidade como núcleo, se expandiu. A década de 70 viu essa expansão: viagens, cursos, algumas publicações, recitais. Liderado por Rolf e sustentado pela Comunidade, esse movimento de expansão foi mudando seu formato ao longo do tempo. Antigos membros se foram, outros continuavam a chegar. Alguns grupos de apoio formaram-se em diferentes pontos do Brasil. O movimento de expansão continuou até que, em 1988 Rolf deixou seu corpo físico de maneira abrupta … sua partida levou os membros da comunidade a grandes mudanças, seja no seu modo de funcionar, seja no todo da CASA, que teve que se adaptar e reafirmar seus objetivos. Apesar da ausência de Rolf, o objetivo da CASA manteve-se firme, o movimento em torno de Sri Aurobindo se manteve e continuou a crescer ao longo dos anos.

Atualmente, embora a comunidade não exista mais, a CASA se tornou uma instituição reconhecida e respeitada, referência para todos aqueles que se abrem à Luz dos Mestres. Pessoas sinceras e dedicadas asseguram a estabilidade e a continuidade do movimento inicial por meio de atividades diversas, tais como leituras regulares e cursos online, assim como cursos e atividades presenciais. A Casa Sri Aurobindo se mantém como parte essencial do movimento de expansão do pensamento de Sri Aurobindo e da Mãe; outros movimentos surgem em diferentes lugares no Brasil e no mundo, cada vez mais a busca por “outra coisa” se acentua, porque corresponde a uma necessidade profunda em uma sociedade falida. Em um mundo governado pelas forças da Ignorância Sri Aurobindo é um farol a nos indicar o caminho.

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