Se observarmos atentamente as flores veremos que elas se desdobram lindamente a partir de um centro. Ele organiza a forma que a flor terá ao desabrochar. É como se o centro tivesse de antemão o desenho milimétrico da flor em sua expressão plena e a conduzisse passo a passo para realizar esse desenho. Conhecer o centro explica a formação e a existência da flor. De maneira comparativa podemos dizer que ir ao centro de qualquer coisa, é aproximar-se daquilo que a gera, mantém e a faz desabrochar. Concentrar é buscar o centro.

A investigação em torno do centro se iniciou no Ocidente de maneira sistemática com a filosofia. Ela foi a primeira a se perguntar pelo núcleo capaz de explicar coisas tão diferentes como o átomo, a sociedade, o conhecimento, a amizade. As reflexões filosóficas geraram então, e continuam a gerar especulações, conceitos, compreensões pelas quais o homem tenta se aproximar das situações em que vive.

A filosofia na Índia também investiga o centro, as verdades básicas da existência, mas não se contenta com a compreensão intelectual, mas nela busca princípios de ação, de orientação existencial. Assim segundo Sri Aurobindo, “uma descoberta por todos os meios apropriados das verdades básicas de toda a existência, devem… tornar-se os princípios condutores de nossa existência.” Exemplos dessa atitude encontramos no Ioga, que empenhou-se não apenas em conhecer teoricamente, mas realizar o controle supremo da Mente no Raja Ioga, ou um domínio poderoso sobre o corpo como o apresentado no Hatha Ioga.

Buscando a realização suprema, essa filosofia busca um caminho espiritual onde concentrar-se é dirigir-se à Realidade suprema. Assim, “no caminho do conhecimento como praticado na Índia, a palavra concentração é usada em um sentido especial e mais limitado. Nela o pensamento se retira de todas as atividades que possam distrair a mente, e essa se concentra na ideia do Um, pela qual se eleva e sai da realidade fenomênica para entrar na única Realidade.”

A concentração possui, segundo Sri Aurobindo, três poderes que são válidos à medida que se busca a realização da Vida Divina:

  1. “Pela concentração em alguma coisa, qualquer que seja, somos capazes de conhecer essa coisa e de obrigá-la a revelar seus segredos escondidos; devemos nos servir desse poder não para conhecer as coisas, mas a Coisa-em-si única.”
  2. “Pela concentração a vontade pode ser reunida para adquirir aquilo que ainda não aprendemos…, esse poder, se for bastante sincero, seguro de si, fiel a si mesmo, absoluto em sua fé, poderá servir para obter qualquer objetivo que seja; mas devemos usá-lo não para adquirir os inúmeros objetivos que o mundo nos oferece, mas precisamos entender que o espírito é o único objetivo digno de ser procurado e o único digno de ser conhecido.”
  3. “Pela concentração de todo nosso ser poderemos nos tornar aquilo que escolhermos; poderemos, por exemplo, mesmo se antes tivéssemos sido uma massa de fraquezas e medos, tornarmo-nos ao contrário, uma massa de força e coragem, ou tornarmo-nos inteiramente uma grande pureza, santidade e paz… ” 1

Esta é a proposta que o Ioga Integral nos faz – a concentração Naquilo que é o centro, a essência e manifestação de tudo, o Divino. Essa concentração nos abre para sua presença no mundo físico, vital, mental e espiritual. A presença Dele em nós, visa nos iluminar por inteiro, porque Ele está em nosso Corpo, em nossa Vida, em nosso Coração, em nossa Mente e em nosso Espírito. Deste centro Ele se desdobra como o desabrochar da flor, guiando todos os passos para que possamos realizar nossa forma mais perfeita.

1 Sri Aurobindo. Todas as referências e paráfrases desse texto encontram-se em: A Síntese do Ioga. São Paulo: Editora Pensamento,2021, p.288/296