Quem é, e qual o papel do homem em relação ao mundo? Será ele um elemento impotente diante do enorme movimento de mudança que percebe à sua volta? Poderá criar com sua mente uma nova forma de habitar a terra ou uma nova forma de ser para a humanidade?
Sri Aurobindo. A Vida Divina. Uma Evolução Espiritual da Humanidade. São Paulo: Pensamento. As citações e paráfrases encontram-se entre as pags. 699-701.
Para Sri Aurobindo não há evidências de que a “mente do ser humano possa criar desse modo um mundo onde antes ele não existia, criar no vácuo, sem uma substância em que ou onde possa construir, embora seja possível que a mente possa acrescentar alguma coisa a um mundo já feito.”

Um agente poderoso
Parece pouco, mas de certa forma estamos constantemente modificando as coisas em função da percepção que temos delas ou do significado que a elas conferimos. Esse poder de acrescentar alguma coisa ao que já existe, faz da mente, segundo Sri Aurobindo:
“um agente poderoso, mais poderoso do que podemos facilmente imaginar, (que) pode fazer formações que (se) realizam em nossa consciência, em nossa vida e na dos outros, e ter mesmo um efeito na matéria inconsciente…”
Percebemos, então, que embora o homem não crie originalmente as coisas, ele é um agente poderoso em relação às “formações” que nelas realiza. Diante disso sentimos uma mistura de responsabilidade e precariedade, porque alteramos, acrescentamos, retiramos, modificamos – nós, os outros e a própria matéria inconsciente – sem saber o que elas realmente são, ou para onde se encaminham. Tudo isso seria assustador se nos pensássemos apenas com piões em um giro louco rumo ao fim, mas Sri Aurobindo coloca esse “agente poderoso” em um contexto mais apaziguador.
Segundo o autor, o mais provável: “é que, enquanto se desenvolve, a mente humana entra em relação com novos domínios de ser e de consciência que não foram de modo algum criados pelo homem… Em sua experiência interior que se alarga, ele abre em si mesmo novos planos de ser;… ele se torna capaz, por meio deles, de conceber esses domínios mais vastos, receber suas influências diretas, entrar neles, representá-los em sua mente terrestre e sentidos interiores. Ele cria, de fato, imagens, formas-símbolo, fulgurações que os refletem e com as quais sua mente pode lidar… Mas tudo isso não é uma criação de mundos superiores do ser; é uma revelação desses mundos à consciência da alma no mundo material em curso de sua evolução a partir da Insciência.”

Seres intermediários
Dessa forma, não somos seres originalmente criadores, mas “seres intermediários”, através dos quais os planos superiores “revelam sua luz, poder e beleza”, através de formas “que a Natureza possa lhes dar no plano material.” Agimos por pressões que nos chegam dos mundos superiores:
“É a pressão do mundo da Vida que possibilita à Vida evoluir e desenvolver-se nas formas que já conhecemos; é essa pressão crescente que leva a vida a aspirar, em nós, a uma revelação maior de si mesma, e um dia libertará o mortal de sua sujeição, às limitações de sua condição física atual incompetente e restritiva.”“É a pressão do mundo da Mente que faz evoluir e desenvolver aqui a mente e ajuda-nos a encontrar uma alavanca que lhe permite elevar-se e expandir-se, a fim de que tenhamos esperança de ampliar sem cessar nosso self de inteligência e mesmo romper os muros da prisão de nossa mentalidade física ligada à matéria.”
“É a pressão dos mundos espiritual e supramental que se prepara para desenvolver o poder manifesto do Espírito, e devido a ele nosso ser se abrirá, no plano físico a liberdade e divindade do Divino supraconsciente, só esse contato, essa pressão podem liberar a Divindade onisciente escondida em nós.”
As palavras de Sri Aurobindo nos dão alento, porque desde o início somos conduzidos nesse caminhar evolutivo, não estamos sozinhos, não dependemos unicamente de uma mente limitada para dar rumo à sociedade e ao futuro do homem. Somos interiormente guiados por planos mais verdadeiros, mais altos e mais luminosos que se realizarão a seu tempo. Diante dos conflitos, dos sofrimentos que acompanham a progressiva iluminação de nossa consciência, Sri Aurobindo nos propõe Fé e Paciência, porque:
“Fé é um sustento que vem do alto,
“É a sombra brilhante lançada por luz secreta que ultrapassa o intelecto e seus dados;”
“É o coração de um conhecimento escondido que não está à mercê das aparências …”
“Se perseverar, nossa fé será justificada em suas obras, e, no final será elevada e transfigurada na autorrevelação de um conhecimento divino.”
Sri Aurobindo. A Síntese do Ioga, p.228.

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