Diariamente nos deslocamos em contextos diferentes de realidade, através da vigília e do estado de sono e sonhos. Cada um deles possui um modo próprio de ser e uma maneira original de apresentar-se à nossa consciência. O estado de vigília não é mais real que o estado de sonho, ambos são modos diferentes de vivenciar aspectos do ser e da consciência em nós.
Os três Estados de Consciência
Sri Aurobindo apresenta três modos pelos quais a consciência se desloca entre a vigília e o sono profundo, conforme veremos a seguir.
1. A Consciência no Estado de Vigília
Sentimos nossa consciência desperta no Estado de Vigília. Assim, ela nos indica com familiaridade quem somos, quem são os outros, e o que são as coisas que nos rodeiam. Mas, mesmo nos movimentando com familiaridade no mundo físico, não sabemos realmente o que ele é.
O mundo físico chega até nós através de imagens que nos são fornecidas pelos sentidos. Então, essas imagens formam um todo completo e coerente em nossa percepção e através delas identificamos imediatamente o objeto a que elas se referem. Com a contribuição da mente, aprofundamos e corrigimos os erros dessas percepções e aperfeiçoamos as representações que fazemos do real.
Dessa forma não acessamos a realidade em si, mas a transcrevemos através de imagens, representações, palavras, números, desenhos, etc. Ou seja, esse é nosso contato com nosso ser externo e com a realidade externa.
2. A Consciência no Estado de Sonho
Do mesmo modo, usamos o recurso de transcrição no mundo dos sonhos. Porém, no sono nossa consciência se retira gradualmente do estado desperto, mas continua atuante em atividades interiores. Ao dormir, nossa parte física, o ser de superfície, recai na Inconsciência que lhe deu origem, e nossa consciência revela através dos sonhos, as experiências que lá ficaram registradas.
Nessa região é o subconsciente quem transcreve as vivências atuais ou passadas, os sedimentos de nossos hábitos mentais, as experiências persistentes que nos formaram, e as apresenta de uma forma que nos parece fantasiosa ou esquisita. Isto porque não temos a chave do sistema de transcrições do subconsciente.
Dessa forma, o contato que possuímos com experiências que estão abaixo da consciência de superfície, nos sonhos, se faz através do subconsciente. Ele transcreve para a consciência de superfície, experiências amplas e profundas que trazem elementos que nosso ser que a superfície desconhece.
3. A Consciência no Estado de Sono Profundo
Depois de certo tempo em que estamos dormindo, a atividade subconsciente parece cair na inconsciência completa, e entramos em um estado de sono profundo, de sono sem sonhos.
Sri Aurobindo nos descreve duas situações bem diferentes a esse respeito:
1- No sono profundo pode-se entrar em uma camada mais profunda e mais densa do subconsciente, involuída, amorfa, profunda e densa demais para que possamos trazer suas estruturas à superfície. Lá sonhamos, mas não conseguimos reter na camada registradora da subconsciência, a imagem desses sonhos.
2- Pode acontecer, porém que nesse sono profundo entremos em contato com o subliminar, domínio interior de nosso ser. Se o subliminar apresentar-se em nossa experiência de sonho, podemos chegar a uma consciência mais profunda de nós mesmos.
Sri Aurobindo. A Vida Divina. Uma Visão da Evolução Espiritual da Humanidade. São Paulo: Pensamento, 2018. Reflexões, paráfrases e citações das páginas, 392-394.
Portanto, os sonhos registrados pelo subliminar transcrevem experiências que vivemos em outros planos de nosso ser ou do ser universal. Podem nos colocar em contato com outros seres e mundos suprafísicos. Esses sonhos podem retornar à nossa memória como sonhos simbólicos que revelam uma poderosa conexão com nossa vida interna ou externa, ou ainda, com a vida dos outros. Revelam influências de nosso ser mental e vital, e podem apresentar também, o ser mental ou vital de outras pessoas e suas influências sobre nós. A consciência subliminar nos põe em contato com avisos, premonições, indicações sobre o futuro e, então, os sonhos verídicos podem substituir a incoerência do subconsciente normal.
Em síntese, o contato com o subliminar, mesmo em sonhos, nos revela esferas mais elevadas, mais profundas e mais sutis de nós mesmo.
Os Sonhos e a experiência interior
Para Sri Aurobindo o Estado de Vigília e sua transcrição pela mente de superfície, o Estado de Sonhos e sua transcrição pelo subconsciente, o Estado de Sono Profundo e sua transcrição subliminar indicam modos pelos quais podemos acessar a nós mesmos, os outros e o mundo. Esses acessos não são excludentes, mas completam-se mutuamente, revelando formas crescentes de autoconhecimento.
Como resultado, quando aprendemos a viver mais profundamente dentro, nossa perspectiva muda e nosso centro se desloca do exterior para o interior. Descobrimos então uma região mais vasta e mais significativa e mais gratificante em nós mesmos. Os sonhos nos auxiliam nesse processo de autodescoberta e se tornam também, mais coerentes, reais e instrutores, à medida que nos interiorizamos e nos tornamos conscientes nessa esfera interna.
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Diferentes formas de consciência
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