Vivemos grudados em nós mesmos como os caramujos em suas casas. Isto cria dificuldades quando se trata da relação com os outros, uma vez que só podemos conhecê-los com lentes, cuja cor e foco é o nosso próprio ser. A percepção e a relação do Eu e os outros fica prejudicada pela centralidade que cada um tem em si, e daí decorrem a solidão e a incompreensão sentidas mesmo entre aqueles que vivem próximos.

Somos feitos de um mesmo modelo
Percebemos que as outras pessoas são feitas de um modelo igual ou semelhante ao nosso. Reconhecemos nelas um corpo, uma mente, um funcionamento que identificamos em nós. Mesmo assim não conseguimos acessá-las plenamente, pois existe uma grande distância quase intransponível entre o que eu penso e o que o outro pensa, o que eu sinto e o que o outro sente, o que eu sou e o que o outro é. É uma ilusão tentar medir o outro com a nossa própria forma. Vemos que o desenho não coincide, é diferente, nos surpreende, nos assusta, nos irrita, nos encanta, nos transcende. A outra pessoa é um verdadeiro mistério para nós.

Somos estranhos um para o outro
Para Sri Aurobindo:
“Os seres humanos (…) vivem como estranhos um para o outro, ligados, no melhor dos casos, por uma simpatia muito parcial e uma experiência mútua (…).”
Sri Aurobindo. A Vida Divina. Uma visão da evolução espiritual da humanidade. São Paulo: Pensamento, 2018, O texto é uma paráfrase e traz referências das páginas. 491-2 da obra citada.
Assim o conhecimento de superfície que temos do outro é incompleto e com frequência também enganador.

Há a possibilidade de relacionamentos mais verdadeiros
É possível relacionar-se de outro modo com as pessoas, partindo de contatos que se dão de interior para interior. Sri Aurobindo nos ensina que ao nível de nosso ser interior estamos constantemente presentes um ao outro, interagindo com seus pensamentos, com seus sentimentos, com aquilo que eles são em sua totalidade, mas não somos conscientes desse intercâmbio.
“Há um constante intercâmbio mental, vital, físico-sutil entre aqueles que se encontram ou vivem juntos, intercâmbio do qual eles próprios são inconscientes.”
Ídem.
Essa interação se faz de modo sutil e invisível, mas pode chegar à nossa consciência de superfície através de palavras, gestos, ações e reações cuja origem nos são desconhecidas.
Para Sri Aurobindo, quando nos tornamos conscientes desse intercâmbio subjetivo, o relacionamento com o outro se modifica, pois:
“Na consciência interior, subliminar, é possível ter uma percepção direta dos pensamentos, dos sentimentos em torno de nós, sentir seus impactos, ver seus movimentos, e ler uma mente e um coração torna-se menos difícil (…).”
Ídem.
Esta relação é mais verdadeira, direta e próxima, porque nela se vai ao outro sem intermediários e, pode-se então vê-lo a partir de dentro. Isto nos parece estranho, mas vivemos com freqüência a presença de informações que nos são claras e disponíveis, mas que não temos conhecimento de onde vieram. Já “sabemos” interiormente que lidamos com informações sutis, mas nossa tendência é não dar crédito a elas, ou então dar-lhes um crédito sem a crítica do bom senso. Precisamos aprender a lidar com as possibilidades de uma consciência e de um conhecimento expandidos, eles estão disponíveis e se tornam mais presentes com o reconhecimento da ação da alma em nós. Para isso precisamos ultrapassar o autoconceito raso que temos de nós mesmos e estar abertos com alegria a essas dimensões maiores que nos permeiam.

Um intercâmbio luminoso e um compromisso frutuoso
Quando ultrapassarmos as interpretações limitadas de nosso conhecimento de superfície, a compreensão será maior que o julgamento quase sempre impiedoso que nosso ego faz sobre o outro. Vendo-nos de forma transparente a partir do ser interno:
“Nossa ação sobre os outros não necessita mais ser ignorante ou involuntária e muitas vezes prejudicial sem o desejar; ela pode ser uma ajuda consciente, um intercâmbio luminoso e um compromisso frutuoso (…).”
Ídem.
Links
Da mesma forma, releia em nosso blog alguns textos relacionados:
A Ciência do Viver: Conhecer a Si Mesmo e Controlar-se (A Mãe)
Educação de si, Educação do outro
Ioga Integral: Indivíduo e Sociedade
Por fim, você também pode se interessar pelo trabalho da Casa Sri Aurobindo.