No post O Homem no Universo I, vimos que o homem e o universo são parceiros e que nesta parceria, o homem é o ponto de consciência capaz de trazer à luz as forças e princípios que agem no universo. Mas, como fazer isso se sua consciência é ainda como um espelho embaçado que apresenta imagens pouco nítidas e deformadas de si mesmo e das coisas? 

Há um caminho a percorrer para que o homem ultrapasse a compreensão pequena do próprio ser rumo a uma consciência mais iluminada. Conhecendo-se mais, ele perceberá que o reino animal do qual procede e que marca tão fortemente as possibilidades de sua vida “é apenas o termo inferior de sua existência” (Sri Aurobindo. A Vida Divina: uma visão da evolução espiritual da humanidade. São Paulo: Pensamento, 2018, p.67.), e que há em si potências inexploradas que modificarão a concepção que ele possui de si mesmo e de suas possibilidades de ação. 

Para Sri Aurobindo, nem mesmo a classificação de “mamífero superior” (Idem) lhe convém, porque seu corpo animal é a base de uma alma que compreende e lhe permite lidar com a matéria através da mente que conhece e interpreta as coisas. Mas, o domínio poderoso da mente ainda não lhe traz a felicidade e a plenitude que deseja, porque ela lhe dá uma “visão falsa daquilo que o indivíduo é no universo, e, portanto, uma atitude falsa em relação a Deus e a Natureza, em relação ao self e ao nosso meio” (Idem, p. 68). O homem “é o maior dos seres vivos porque é o mais descontente, porque mais sente a pressão das limitações” (Idem).

 

Sri Aurobindo vê neste descontentamento uma indicação frágil e ao mesmo tempo profunda de sua própria transcendência. O homem é um ser insatisfeito porque nele existe “uma afirmação prática de algo essencialmente superior ao seu ser atual” (Idem).

“Porque o que o ser humano se tornou não está em harmonia com o mundo em que habita e nem mesmo com o que ele deveria ser e será, por isso ele está sujeito a contradições.” 

Idem, p. 68

 

O homem sente a limitação de sua mente e de seu ego e sabe que não está em harmonia, nem com a verdade secreta de si, nem com a verdade secreta das coisas. Pode, entretanto, acessar uma mente mais profunda e perceber que seu ego obscurecido e limitado não representa a totalidade de seu ser.

Mais do que isto, pode se ver além do ego “como um centro do Divino e da consciência universal, que abarca e utiliza todas as determinações individuais e as transforma em harmonia com o Divino.”   

Idem

O universo e o indivíduo são necessários um ao outro, existem um para o outro e se enriquecem-se mutuamente.

“Mas é o indivíduo, é o filho do Homem que é capaz de modo supremo de encarnar Deus.” 

Idem, p. 68

O cumprimento de seu papel se dá à medida que manifesta o Transcendente e o Universal em seu corpo. Seu caminho de perfeição e autoconsciência não consiste, porém, em negar as dificuldades, mas em ultrapassá-las.

 

Ele se erguerá “quando tiver feito da Morte uma vida mais perfeita, elevado as pequenas coisas da limitação humana às grandes coisas da vastidão divina, transformando sofrimento em beatitude, convertido o mal em seu próprio bem, traduzido o erro e a falsidade em sua verdade secreta.” 

Idem, p. 69

Este é, segundo Sri Aurobindo, “o caminho estreito pelo qual a Natureza escapa da Matéria para alcançar a consciência, essas contradições são, ao mesmo tempo, o resgate e os bens da Natureza.”

Idem, p. 68

* Recomendamos que os textos do blog sejam lidos duas ou três vezes, se possível com intervalo entre as leituras. Percebemos que cada vez que retomamos um texto de Sri Aurobindo ou da Mãe, ele nos ensina algo que ainda não havíamos notado.